Linux em Portugal: da "Idade da Pedra" à "Idade de Ouro"



Os recentes investimentos da IBM e Sun em produtos e serviços Linux são um bom prenúncio de que estamos a entrar numa nova fase da evolução do Linux. Estamos possivelmente a entrar numa "fase de ouro", em que empresas e particulares encontrarão no compromisso daquelas duas empresas com o software livre, o sinal que faltava para avançarem. O aparecimento da primeira distribuição portuguesa, a Caixa Mágica, é outro reflexo dessa mesma tendência.

Mas na história do Linux em Portugal nem sempre tudo se desenrolou dessa maneira. Resistências, pressões de lóbis e inércia de governantes são hoje uma constante a quem pretende inovar na área dos Sistemas Operativos.



Um "parto" universitário

Uma utilização mais intensiva do Linux em Portugal remonta aos idos anos de 1995/1996. Nessa altura, assistia-se por um lado ao aumento da utilização da Internet nas Universidades Públicas e, por outro, ao crescimento dos ISPs recém estabelecidos no mercado. Estes últimos, passaram a utilizar este sistema operativo como forma de diminuirem custos na aquisição e manutenção da sua infra-estrutura de rede.

É precisamente nesse contexto que em 1997 surgem os primeiros grupos universitários de utilizadores de Linux, destacando-se o GUL (ISCTE), o GIL (Univ. Minho) e um grupo da Univ. do Algarve.

Estávamos no tempo da criação da rede de IRC e esses grupos de estudantes e professores acabavam por se conhecer através não só do IRC como em eventos que iam surgindo.

O primeiro desses eventos aconteceu em 1998, no ISCTE, apoiado pela ADETTI, com a I Workshop de Linux do GUL. Com essa iniciativa, várias pessoas que se conheciam apenas por email e IRC, puderam então trocar ideias pessoalmente. Organizada pelo GUL, teve a presença de elementos do GIL, da Esoterica (o ISP que nessa altura divulgava publicamente a sua utilização do Linux), entre outros.

Interessante é verificar que os activistas dessa altura, como o António Coutinho e o Mário Valente, ainda continuam a militar na causa Linux.

Essa workshop teve uma segunda edição em 1999, altura em que sucedem dois acontecimentos importantes para a comunidade de Linux portuguesa.

O primeiro foi a organização do Simplinux, um evento de enorme sucesso que teve lugar na Univ. do Algarve e que trouxe Alan Cox a Portugal (um dos responsáveis pelo Kernel do Linux). O segundo acontecimento foi a criação do GilDot, um popular fórum de discussão na Web que é o centro nevrálgico do Linux em Portugal. Até então, o grupo de discussão pt.comp.so.linux (USENET) era o único veículo da discussão dessa comunidade.

O Simplinux marca uma viragem do papel do Linux em Portugal, que por sua vez começa a ser referido na imprensa e utilizado vulgarmente no mercado empresarial de servidores.


A "adolescência"

Paralelamente à afirmação do Linux no mercado empresarial no segmento servidor, assistiu-se no final da década de 90 à sua utilização no desktop por utilizadores que já estavam familiarizados com o Linux ou demais Unix. Estamos a falar de administradores de sistemas, estudantes de informática e outros cujos conhecimentos de informática podem ser considerados acima da média.

Surge nessa altura o Poli, um projecto de documentação do Linux, que visava facilitar o trabalho a quem procurava ajuda sobre este sistema operativo.

Nesta "adolescência", a queda das DotCom vem provocar a derrocada de uma série de empresas tecnológicas que apostavam em Linux.

Como em todas as adolescências, também o Linux, teve altos e baixos.

A queda atrás citada foi interpretada de duas formas pelos analistas. Uns defendiam que a taxa de penetração do Linux estaria em regressão, derivado do desgaste a que estava submetido pela imprensa que criara falsas expectativas junto da opinião pública. Outros, defendiam estar a ocorrer uma "limpeza" das empresas que inadequadamente centravam a sua actuação no Linux, descurando outros aspectos de negócio. Acrescentavam ainda que poderia ser positivo para o Linux que as empresas menos competitivas desaparecessem, havendo então a separação do "trigo do joio".


A "maturidade"

Falar da maturidade do Linux em Portugal passa por rever a utilização eficaz que as empresas estão a fazer do mesmo. Poderia citar vários casos de empresas que utilizam o Linux como um potente servidor de email, de web, de ficheiros e mesmo de domínios NT (como PDC e BDC).

Esta implementação está progressivamente a acontecer, faltando apenas uma eficaz oferta na área do suporte empresarial a estas soluções. Existem boas empresas que oferecem produtos e serviços Linux mas, muito possivelmente, haverá espaço para mais com o crescimento deste mercado.

Para falar desta maturidade vou restringir-me ao caso que conheço da Caixa Mágica, a primeira distribuição de Linux Portuguesa.


Linux Caixa Mágica

A Caixa Mágica nasceu de uma ideia de três autores (Daniel Neves, José Guimarães e Paulo Trezentos) e que foi ganhadora do Prémio Milénio 2000, promovido pelo jornal Expresso e cerveja Sagres.

O prémio permitiu que durante um ano fosse desenvolvida uma distribuição de Linux, documentação e respectivo suporte orientado para as necessidades portuguesas.

Para testarmos o software que ia ser desenvolvido, pedimos que os fabricantes de computadores nos emprestassem algum material para testes.

Foi interessante verificar a dependência dos mesmos face à empresa (quase ?) monopolista no mercado de sistemas operativos. À excepção da Fujitsu/Siemens, que apostou no projecto desde o primeiro dia, outros fabricantes levantaram a questão de que, dado a grande competitividade do mercado dos PCs e Notebooks, uma relação "priveiegiada" com a Microsoft era determinante para poderem oferecer condições especiais aos seus clientes. Tal apoio podia assim por em causa essa relação. Empresas como a HP, cujo empréstimo de um PC para testes não é relevante para a sua situação financeira, recusaram assim qualquer tipo de apoio.

Mas se neste aspecto a resistência não pode ser directamente imputada à Microsoft, noutros casos há em que pode, e deve ser, reconhecida.

Com base num protocolo com a FCCN, a equipa da CM encontra-se a desenvolver uma versão especial da mesma para eventualmente ser utilizada nos computadores de escolas públicas com acesso à Internet.

Estando prevista a ligação de 11.000 escolas, facilmente se calcula a poupança que traduziria a mudança de sistema operativo.

Ao sabermos da doação de 900 computadores usados a esta rede, por parte da TMN, pareceu-nos uma boa oportunidade para por em prática a utilização do Linux nas escolas.

A Microsoft antecedeu-nos. Quando demos por isso, lemos na comunicação social que ela própria tinha doado o sistema operativo e o Office para esses computadores. Uma atitude pouco normal.

Diga-se, em abono da verdade, que não é ilegal fazer esta doação para beneficiar do desconto nos impostos do valor das 900 licenças, mas será ético ter-se uma atitude tão agressiva perante um projecto não comercial?

Quando confrontámos informalmente o ministro da Ciência e Tecnologia, Prof. Mariano Gago, com esta atitude disse-nos "Mas o que é que eu podia fazer? Eles ofereceram...".

O problema não está obviamente no ex-ministro que várias vezes apoiou o software livre, como se vê pela sua intervenção na directiva comunitária E-Europe, mas na estratégia duma empresa com uma posição demasiado dominante no mercado.

Do Prof. Mariano Gago, vale a pena citar mais uma das suas intervenções.

No evento Internet.pt foi questionado acerca da posição das empresas com soluções proprietárias em relação à directiva E-Europe (esta directiva sugere aos estados membros, entre outras premissas, que devem legislar no sentido de privilegiar soluções livres em detrimento de proprietárias em concursos públicos). Respondeu que, naturalmente, os presidentes dessas companhias tinham falado com ele, ao que lhes disse: "...vocês apenas podem atrasar o progresso 5 ou 10 anos, mas o futuro é definitivamente das soluções de software livre". Nem nós diríamos melhor.

Do governo anterior, nem todos deixaram uma impressão e trabalho realizado tão positivo quanto o ex-ministro da Ciência e Tecnologia.

O ministro Alberto Martins, ministro da Reforma do Estado e da Administração Pública, foi por nós abordado no evento Porto Cidade Tecnológica, organizado em conjunto pelo grupo Reino Linux (FEUP) e Câmara Municipal do Porto.

Ao contrário de Pedro Veiga (FCCN) ou Nuno Cardoso (ex-Presidente da CM-Porto), o ministro não pareceu ter opinião sobre o software livre e as consequências que este poderia ter para a diminuição da despesa pública. Pior do que ter uma opinião contrária à nossa, é ter-nos parecido que ele nem sequer percebia o alcance do problema (e da solução).

Se o panorama atrás traçado pode parecer negro quanto às resistências que a Caixa Mágica tem encontrado, elas são largamente compensadas pelos apoios.

Saturadas de falta de alternativa temos tido contactos de pessoas, organizações e empresas que prestam auxílio ao projecto.


"Aonde quer ir amanhã?"

A pergunta não é a mesma do que a usada pelo marketing da Microsoft ("Where Do You Want To Go Today?"), mas porventura dir-nos-á mais.

O Linux está em Portugal de boa saúde e recomenda-se.

O mundo empresarial conta hoje com várias empresas dispostas a implementar soluções "open-source" muito competitivas.

Complementando a oferta do Linux a nível de servidores, temos uma distribuição inteiramente portuguesa também vocacionada para o mercado Desktop. Se esta distribuição desagradar ao utilizador, tem ainda a hipótese de escolher entre várias estrangeiras, como a SuSE ou a RedHat.

Não sejamos voluntariosos. Reconheçamos que nem tudo está perfeito e que temos de percorrer ainda algum caminho até que o Linux possa ser utilizado por todos, sem distinção dos seus conhecimentos informáticos.

A pequena "minoria ruidosa" que se encontrava nas catacumbas das universidades em 1997, deu lugar a uma grande "maioria silenciosa".

E a próxima paragem é...adivinhem...